Mineração

Após 20 anos, finalmente termina a dragagem em Vitória

Após quase duas décadas de promessas, contratos, paralisações e até irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU), as obras de dragagem do Porto de Vitória finalmente foram concluídas. Prometidos desde 1998, a área de manobra dos navios e o canal da Baía de Vitória mais profundos foram finalizados nesta segunda-feira (2).

A partir de agora, o canal de acesso tem 14 metros de profundidade, e a bacia de evolução – área em que os navios fazem as manobras – 13 metros. Antes, a profundidade era de 11,7m. Com a obra, a Codesa afirma ter um ganho operacional de 1,83m, permitindo que embarcações maiores, com calado de até 12,5m, atraquem no porto.

Não vai ser de imediato que os capixabas avistarão navios maiores navegando pela Baía de Vitória rumo ao porto. Isso porque é preciso superar trâmites de homologação e autorização pela Marinha, que realiza a batimetria, que é uma medição da nova profundidade, fazendo uma validação dos resultados da dragagem.

Segundo a Codesa, uma primeira liberação já foi feita, mas a autoridade portuária ainda aguarda mais duas, uma que deve sair na próxima semana, e outra que deve sair até novembro. Somente a partir daí que navios maiores poderão atracar no Porto de Vitória.

Mesmo com a finalização da obra, entidades capixabas defendem que, apesar da melhoria no Porto de Vitória, é preciso evoluir e ter um porto de águas profundas para que o Estado se torne mais competitivo. Outro ponto importante para elas é criar uma boa logística, com rodovias e ferrovias, para suprir as necessidades no transporte das cargas.

Segundo Marcilio Rodrigues Machado, presidente do Sindicato do Comércio de Importação e Exportação do Estado (Sindiex), e Luiz Fernando Volpato, subcoordenador de logística do ES em Ação, a dragagem é uma vitória, porém é preciso olhar para ela com certa cautela.

“Com a melhoria no Porto de Vitória, não significa que temos que abandonar a possibilidade de portos maiores no Estado”, contou Machado. O presidente também comentou que não dá para se acomodar com um porto um pouco mais profundo. “É preciso pensar nas possibilidades do futuro. Qualquer vantagem ou ganho tem vida curta ou passageira.”

Já Volpato lembrou que existem limitações para além do calado do Porto de Vitória. “Ele por si só não é suficiente. O restante da cadeia tem que dar continuidade. Todos os setores envolvidos com as operações portuárias têm que trabalhar para aproveitar a melhoria.”

“Muitos navios não saem cheios já que com a capacidade total não passariam. Com a obra finalizada possibilitaria que usassem sua capacidade máxima”, contou o presidente do Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais, Cal e Calcários (Sindirochas), Tales Pena Machado.

Segundo ele, com um porto de águas profundas, o tempo de exportação das rochas – hoje de 40 a 45 dias – cairia quase pela metade e acabaria com o custo de traslado, já que não seria mais necessário.

No caso da exportação de café, a mudança será pequena. Jorge Luiz Nicchio, presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória (CCCV), explicou que o problema de comportar grandes navios continuará e, com isso, o sistema de cabotagem (navegação entre portos do mesmo país).

De acordo com Nicchio, hoje, 95% do café que sai do Porto de Vitória, antes de ser exportado, precisa ir para o Porto de Santos (SP) para embarcar em um outro navio. “Vamos ganhar em escala porque um navio maior pode atracar aqui e isso vai baratear um pouco o custo final dessa cabotagem, mas o que precisamos é um porto de águas profundas que comporte a atracação de um navio de 350 metros.”

19 ANOS DE NOVELA

Em 2006 a dragagem chegou a ser concluída, mas a batimetria feita constatou pontos em que os 12,5m de profundidade não foram atingidos, o que exigiu uma nova dragagem. Em 2012, mais um contrato foi assinado com a promessa de entrega para 2013, mas só agora a obra foi finalizada.

Segundo o presidente da Codesa, Luis Cláudio Montenegro, os atrasos se devem em grande parte pela derrocagem, que é o processo de retirada de rochas do fundo do mar. “Pela sondagem não era possível identificar se era rocha ou argila, fomos descobrindo isso na medida que a obra foi avançando, mas resolvemos.”

Além de tempo, as mudanças renderam custos a mais para os cofres públicos. O contrato que em 2012 foi fechado por R$ 85,6 milhões, ficou por R$ 118,6 milhões, fora todo o dinheiro gasto em outras tentativas frustradas de aumentar a profundidade do porto.

COMPETITIVIDADE

A expectativa da Codesa é que, com a possibilidade de atracação de navios maiores, o custo do transporte de cargas fique mais barato, o que deve tornar o Porto de Vitória mais competitivo.

Linhas diretas de cargas com países da Ásia, Europa e Estados Unidos já foram firmadas, e a expectativa da Codesa é que outras sejam criadas. Linhas de turismo também serão beneficiadas, com a volta da atracagem de cruzeiros na Capital.

Segundo a Codesa, a exportação e a importação de mercadorias consideradas “carga limpa”, como veículos, devem ser as mais beneficiadas.

POR DENTRO DA NOVELA

1998

Início: Em dezembro de 1998, a Codesa e a Enterpa Engenharia assinaram contrato para a dragagem da Baía de Vitória.

2000 e 2001

Paradinha: A obra foi considerada irregular pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2001, a Codesa assinou a repactuação do contrato.

2002 e 2004

Nova vilã: Após ser liberada verba para a conclusão da dragagem e ampliação da retroárea do porto, em 2004, foi detectada uma rocha, que ficou exposta durante a retirada de material do fundo do mar e atingiu a draga que fazia o serviço.

2005

Esperança: A promessa era de que as obras de explosão de rochas e dragagem seriam feitas entre 90 e 120 dias.

2006 e 2007

Reviravolta: Apesar da dragagem ter sido concluída em 2006, ao ser feita a batimetria (medição da profundidade) constatou-se 12 pontos de restrição, onde a profundidade de 12,5m não foi atingida.

2009 e 2010

Contrato irregular: Um projeto para uma nova dragagem foi licitado. Mas as obras foram interrompidas pelo TCU por sobrepreço.

2012

Novo recurso: O projeto para dragagem foi retomado dentro do PAC 2, visando ampliar para 14,5 metros a profundidade do porto e do canal de acesso.

2013

Promessa 1: Promessa de que as obras de dragagem seriam concluídas em dezembro.

2014

Promessa 2: Uma nova promessa de conclusão: final de 2015.

2015

Promessa 3: Obras ficaram paradas praticamente durante todo o ano e a promessa era de que fossem concluídas até o 1º semestre de 2016.

2016

Promessa 4: Nova previsão era de que a dragagem fosse concluída até o final de outubro desse ano.

Abril de 2017

Promessa 5: Obras seriam entregues em abril. Faltava apenas a retirada de 3,5 mil metros cúbicos, dos 1,8 milhão do projeto inteiro.

Julho de 2017

Última promessa: Ainda restava a remoção de 3,5 mil metros cúbicos. Dessa forma, um novo prazo foi estimado para a entrega da obra: outubro.

Outubro de 2017

Só falta carimbar: Com a obra concluída, resta agora a homologação da nova profundidade, pela Marinha, que deve acontecer até novembro de 2017.

PORTO CENTRAL – OBRAS SÓ ANO QUE VEM

As obras do Porto Central – projeto em Presidente Kennedy que reúne as características para destravar os gargalos de infraestrutura portuária do Estado – deverão ter início no segundo semestre do próximo ano.

Os responsáveis pelo empreendimento, que está desde 2014 em processo de licenciamento ambiental, esperam obter as licenças necessárias para então ser iniciada a construção. Segundo o diretor-presidente do Porto Central, José Maria Vieira de Novaes, na semana passada foram protocolados os estudos complementares que o Ibama requereu para a emissão da licença de instalação.

“A área total do empreendimento será de quase 18 milhões de m2 para possibilitar que os maiores navios de cada tipo de carga atraquem. Serão 25 metros de calado, o que vai atender aos grandes petroleiros e aos navios de minério de ferro.”

A primeira fase da obra, segundo Novaes, terá um investimento de R$ 3 bilhões para dragagem do canal de acesso e construção do cais e da infraestrutura de alguns terminais. Serão criados na construção até 4 mil empregos.

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