Óleo e Gás

As heranças do pré-sal em Santos

Passados seis anos, pouco se concretizou do sonho do pré-sal na Baixada Santista

O sonho era grande: até este ano Santos seria referência na produção de Petróleo e a região ganharia centenas de novos postos de trabalho graças à descoberta e a exploração do pré-sal. O mercado imobiliário acompanhou a proposta e dezenas de novos prédios foram erguidos na cidade. A sociedade civil também abraçou a promessa e cursos de petróleo e gás se espalharam pelas faculdades e universidades da região.

Passados seis anos, pouco se concretizou do sonho do pré-sal na Baixada Santista: apesar de estar em operação, a bacia de Santos produziu 1,217 milhão de barris de petróleo no mês de setembro, quantidade menor que a prevista. Nesse contexto, as universidades fecharam os cursos tecnólogos de Petróleo e Gás e os enormes edifícios erguidos por diversas áreas da cidade estão desocupados.

Um dos maiores símbolos da derrocada do pré-sal está no coração daquele que seria um bairro revigorado de Santos após a descoberta: o Valongo. Onde hoje deveria existir um complexo com três prédios em uma área de 25 m², apenas uma torre ocupa o terreno.

No entorno da região, os armazéns que deveriam ter sido revitalizados seguem abandonados e sem perspectivas de retomada nos projetos. Uma das poucas promessas levadas adiante, – a construção do Museu Pelé – também registra números irrisórios de visitas e esteve envolvida em diversas denúncias e problemas ao longo dos anos.

Reportagem do Diário do Litoral datada de fevereiro deste ano evidenciou a debandada de empresas da região central da cidade, que de acordo com a proposta de revitalização, estaria com o comércio pulsante.

Dados da Prefeitura de Santos apontam que o centro abriga atualmente 2224 empresas e 144 restaurantes, mas só neste ano, 163 empresas encerraram suas atividades e 77 migraram do centro para outros bairros.

O número de fechamentos de comércio, aliados com todos os investimentos do pré-sal que não foram adiante, são diretamente proporcionais ao crescimento do desemprego na região: apenas em 2016 a Baixada Santista foi a região do Estado que mais demitiu funcionários.

Da euforia para a crise econômica

Um dos maiores símbolos da crise econômica, a Petrobras foi da euforia da descoberta do pré-sal, em 2006, direto para as denúncias de corrupção.

Em nota, a Petrobras afirma que a produção de petróleo e gás natural na Bacia de Santos é uma realidade e que apenas no último mês de setembro, a Bacia de Santos registrou uma produção média diária de 1,217 milhão de barris de petróleo, o que representa atualmente cerca de 40% do total produzido no país. Além disso, as unidades que operam na Bacia de Santos hoje entregam ao mercado cerca de 32 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia.

Atualmente, 15 plataformas estão em operação: Merluza, em operação desde 1993 na costa de Praia Grande (SP), produzindo nos campos de Merluza e Lagosta; Mexilhão, operando com gás natural desde abril de 2011, no litoral de Caraguatatuba (SP); FPSO Cidade de Santos, que produz os campos Uruguá e Tambaú, na costa do Rio de Janeiro, desde 2010; FPSO Cidade de Itajaí, responsável pela produção das áreas de Baúna e Piracaba desde fevereiro de 2013; além de dez navios-plataforma na área do pré-sal (FPSO Cidade de Angra dos Reis, FPSO Cidade de São Paulo, FPSO Cidade de Paraty, FPSO Cidade de Mangaratiba, FPSO Cidade de Ilhabela, FPSO Cidade de Itaguaí, FPSO Cidade de Maricá, FPSO Cidade de Saquarema, FPSO Cidade de Caraguatatuba e P-66). A UO-BS opera ainda o FPSO BW Cidade de São Vicente, unidade itinerante utilizada em testes de longa duração.

Segundo o Plano de Negócios da Petrobras, mais 15 plataformas estarão operando no pré-sal da Bacia de Santos até 2021.

Em relação às torres, a estatal destacou que cerca de 2.300 pessoas, entre empregados e profissionais de empresas prestadoras de serviço, trabalham hoje no edifício-sede da Petrobras no bairro Valongo. O projeto foi desenvolvido levando-se em conta o dimensionamento da força de trabalho e que a torre existente atende ao momento atual da composição de efetivo.

Questionada sobre as propostas de revitalização dos armazéns, a Prefeitura de Santos destacou que está elaborando nova proposta para os armazéns 1 ao 8 integrada a um projeto maior de qualificação do Centro.

‘Todo mundo acreditava nas promessas do pré-sal’

Hoje síndica e proprietária de uma das salas dos empreendimentos construídos no Valongo na fase de expansão do pré-sal, Andrea Stumpf Bittencourt demorou anos para ver a sua unidade ocupada por um valor 40% menor do que o estipulado.

“Todas as unidades foram vendidas em um único dia. Todo mundo acreditava muito nas promessas do pré-sal e, no meu caso, sempre ouvi dizer que o melhor investimento é o imobiliário”, conta.

Hoje, das 214 unidades disponíveis no empreendimento, apenas 24 estão ocupadas. Embora pequeno, o número representa um avanço. “Até dezembro do ano passado tínhamos apenas seis unidades ocupadas.

Estou animada com o crescimento. Acho que estamos retomando aos pouquinhos todo aquele fôlego”, afirma Andrea.

A síndica comprou uma das salas do empreendimento ainda na planta, quando recebeu o dinheiro da rescisão da empresa onde trabalhava. “O fretado passava aqui na frente e eu comecei a ver a construção.

Naquela época a expectativa era uma verdade, tanto que muitos proprietários de unidades são funcionários da Petrobras. Ninguém esperava  aquele escândalo todo”, relembra.

Ela acredita que a crise econômica mundial de 2010, aliada com as denúncias de corrupção e a crise no Brasil, formaram um efeito cascata que abalou o mercado. “Eu mesma perdi meu emprego antes da crise brasileira e não consegui recolocação em minha área (tecnologia da informação) até hoje. Acredito que o sonho do pré-sal entrou nesse pacote, mas os próprios números de ocupação crescentes nos dão esperança de que as coisas estão melhorando”.

SAÍDA DE EMPRESAS

Contrariando as estatísticas que apontam que a região ainda possui valores convidativos, o destino de boa parte das empresas que saíram do Centro foi o Gonzaga, bairro com o metro quadrado mais caro de Santos. Mecanismos foram criados pela Administração para que a situação fosse revertida: dentre eles o ‘Alegra Centro’.

IMÓVEIS OCIOSOS

Para o advogado Rogério Marques da Silva, proprietário da Imobiliária Marques, o pré-sal foi um dos principais fatores que inflacionaram o mercado imobiliário de Santos e a não concretização da expectativa de crescimento contribuiu para que inúmeros imóveis fossem desocupados na cidade. (DL)

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