Editorias

Crise no Catar pode abrir espaço para economia brasileira no Oriente Médio

A crise surgida com o rompimento das relações entre países árabes e o Qatar pegou muitas nações de surpresa, mas pode ser um reflexo da política americana no Oriente Médio, segundo o consultor de cultura e negócios internacionais da Mercator Business Intelligentsia, Jorge Mortean, que é especialista em estudos sobre a região e já atuou como professor de relações internacionais na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e na Universidade Paulista (UNIP). Na análise de Mortean, a medida é fruto de uma tentativa de “criar um ambiente isolacionista aos iranianos”, o que, para além das questões geopolíticas internacionais, poderia gerar efeitos benéficos para as relações comerciais brasileiras no Oriente Médio. “Acho que é um momento de investir em missões empresariais e feiras. Apostar em eventos bilaterais de comércio, fóruns etc. (…) As relações do País com a região são da época de Dom Pedro II e têm muitas potencialidades até hoje. O Brasil já tem uma boa imagem lá, eles são muito receptivos com a indústria e as marcas brasileiras, e somos competitivos nestes mercados”, afirma.

Como a crise do Qatar com os países vizinhos afeta o setor de óleo e gás mundial neste primeiro momento?

Esse é o grande mote de toda essa crise: a área econômica, que é reflexo da política. O isolamento do Qatar dos demais países árabes é um claro reflexo da política externa americana, na tentativa de criar um ambiente isolacionista aos iranianos. A desculpa dos países ditos irmãos, que são todos árabes sunitas, para o rompimento, é o pretexto de que o Qatar financiaria grupos terroristas e pela estreita relação com o Irã, que, segundo os EUA, é um grande apoiador do terrorismo regional.

Vamos lembrar que o Estado Islâmico é um grupo terrorista radical de cunho árabe-sunita, cujo aparato de apoio, tanto logístico quanto financeiro, bélico e em termos de inteligência, é apoiado não só pelo Qatar, mas principalmente pela Arábia Saudita.

Mas, se a Arábia Saudita apoia o Estado Islâmico, e os Estados Unidos têm um forte discurso e atuação contra o terrorismo, principalmente contra o Estado Islâmico, acentuado com o presidente Donald Trump, por que o governo americano se aproximaria mais do país?

Para vender armas e ganhar nas duas pontas. Há uma grande hipocrisia na relação geopolítica nas relações entre os Estados Unidos e o jogo regional no Oriente Médio. É uma tentativa desesperada de tentar fazer com que o petróleo seja valorizado. Se por meio de corte (da OPEP) a medida não está sendo tão eficaz, há um foco para que o conflito possa levar a distúrbios políticos e comprometa a cadeia de petróleo e gás natural.

Acontece que, ao mesmo tempo em que isso é vantajoso, se há uma punição ao Qatar por apoiar o terrorismo no Irã, sendo que a Arábia Saudita também apoia o terrorismo, porque não punir diretamente o Irã?  A Arábia Saudita tem um salvo conduto dos Estados Unidos, que compram muito petróleo deles. A produção de gás natural do Irã e do Qatar é muito maior do que da Arábia Saudita, que é focada no petróleo. Mas o que interessa mais aos EUA é o petróleo.

Mas o petróleo caiu nesse primeiro momento, em função dos riscos do fim do acordo da Opep…

Sim, mas a produção aumentou de ontem para hoje? Não. Primeiro porque não estão em pé de guerra para isso. Mas, à medida que os investimentos na cadeia de petróleo sejam reduzidos com a insegurança na região, a expectativa é que o preço do petróleo suba. A reação de mercado é adversa, porque o mercado consumidor, principalmente o Ocidente, não tem interesse num preço alto do petróleo. Então a resposta econômica tende a ser favorável ao Ocidente neste primeiro momento.

Quais podem ser os efeitos a longo prazo se a crise se prolongar?

Diplomaticamente, para a região, pode haver uma resposta do Irã, por exemplo, que é um país que está no centro da discussão do rompimento, com um fomento à produção, e venda mais barata. O Qatar pode tomar uma medida drástica de negociar o preço do seu gás natural à revelia da Opep, enfraquecendo politicamente a organização, o que gera ganhos para o Ocidente. Mas acredito que o preço do petróleo vá subir sim, mesmo que o mercado force para baixo. Politicamente, a escolha árabe será de elevar o preço, apesar do prolongamento do corte da Opep.

Em termos de políticas regionais, enfraquece o conselho do Golfo. Tanto que a primeira medida dos EUA foi uma convocação aos países árabes, para tentar acalmar os ânimos, para que isso não se estenda a campos econômicos mais sensíveis, como as indústrias bélica e de petróleo.

Os EUA podem se beneficiar?

O país não quer que os conflitos acabem, porque os conflitos nas áreas petrolíferas, especificamente no Iraque, e as ações para derrubada do governo Sírio, isolando o Irã, fazem a conta dos interesses americanos se fechar. Porque um petróleo mais barato pode interessar à importação, mas um petróleo mais caro também pode interessar, fomentando a produção interna. E, na outra ponta, há um aumento na venda de armas.

Pelo histórico das intervenções americanas, não se pode dissociar as estratégias deles para o setor energético das ações pensadas para indústria bélica com relação a essa região.

Quais são os impactos para o Brasil?

Se a oferta cai, os preços sobem, em tese, mas isso não tem sido tão rápido na indústria do petróleo quanto se espera. O Brasil não pode vender também a preços maiores, já que os mercados regionais, não necessariamente ligados ao petróleo, também estão com preços mais baixos, então o prognóstico não é tão bom também no cenário energético. Mas na outra ponta pode ser positivo.

Nós não compramos nem vendemos petróleo do Oriente Médio, mas compramos polietileno do Irã, por exemplo, e os preços devem cair. Então a princípio é benéfico, se os preços do petróleo não subirem muito depois.

As nossas exportações e investimentos diretos, em bens manufaturados e de alto valor agregado, tiveram crescimento apenas nas relações com o Oriente Médio e o Norte da África no primeiro trimestre desse ano e no ano passado. Nossa balança com o Irã em 2016, que foi um ano ruim para toda a economia, quase bateu o recorde histórico de 2010, com altas também junto à Arábia Saudita, à Turquia e outras países, com superávit para o Brasil.

Mas a crise não pode gerar um desaquecimento nessas economias, impactando essa relação com o Brasil?

Na verdade, seria interessante para o Brasil que esses países tivessem um desaquecimento econômico, porque a questão logística complica o abastecimento e o preço do petróleo é um ponto muito importante nessas economias, o que poderia abrir espaço para vendas brasileiras.

Por exemplo, ovos brasileiros vendidos no Iraque, depois de serem embarcados em contêineres aqui, cruzarem longas distâncias e ainda rodarem 1.000 quilômetros em caminhões não refrigerados na região, geram 300% mais de lucro do que em vendas internas no Brasil. Então o mercado mais aquecido gera uma competição mais acirrada com outros países, como os europeus, enquanto que o menos aquecido tem mais espaço para a entrada brasileira. O mercado iraniano é muito mais interessante para o Brasil do que a Turquia, por exemplo, porque a concorrência é muito menor.

Como o Brasil deve se posicionar em relação à crise?

Acho que é um momento de investir em missões empresariais e feiras. Apostar em eventos bilaterais de comércio, fóruns etc. Nós tínhamos uma política externa mais pragmática, que consolidou mercados que nós não tínhamos, mas que está muito aquém do seu potencial. Independente de quem esteve ou está no governo, nossa economia tem condições de fazer isso. As relações do País com a região são da época de Dom Pedro II e têm muitas potencialidades até hoje. O Brasil já tem uma boa imagem lá, eles são muito receptivos com a indústria e as marcas brasileiras, e somos competitivos nestes mercados.

Quais os riscos de uma aproximação neste sentido, já que o Brasil tem relações com os outros países também?

Esse risco é mínimo. Nossa política externa não é pragmática neste sentido, de fazer escolhas diplomáticas. O Brasil não teria uma preferência ou chegaria a preterir um país ou outro. A mensagem do Brasil é conciliadora e na história do Brasil não tem esse tipo de opção. O Oriente Médio já teve crises piores e mesmo assim não tomamos posições, então não acredito que isso será feito agora. Seria um passo muito inoportuno e arriscado ter que dialogar exclusivamente com um bloco ou um só país. Pelo menos o Itamarty não dá sinais de que vá fazer isso.(Fonte)

Voltar ao Topo
Site Protection is enabled by using WP Site Protector from Exattosoft.com