Petróleo

Se somos até mesmo exportadores de petróleo, por que importamos combustível?

O Brasil importa diariamente cerca de 202 mil barris de petróleo bruto e 650 mil barris de derivados. Por outro lado, exportamos uma média diária de 1,032 milhão de barris de petróleo bruto. Extraímos 2,6 milhões de barris por dia. Os dados são da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e se referem ao primeiro trimestre de 2018.

Em tempos de polêmica sobre os preços dos combustíveis, surge uma questão: se os derivados são mais caros que o óleo cru, por que não fazemos combustíveis aqui dentro, com nosso próprio petróleo, em vez de importar?

Petróleo não e tudo igual

A resposta não é tão simples quanto parece. Isso porque existem diferentes tipos de petróleo pelo mundo, tanto em questão de densidade, quanto em classe de hidrocarbonetos, explica Alexandre Szklo que é professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.

Os chamados petróleos leves possuem cadeias de carbono menores e mais fáceis de serem quebradas, ideais para produção de gasolina e outros derivados nobres. Os principais barris de petróleo leve comercializados hoje no mundo são o West Texas Intermediate (WTI), negociado na Bolsa de Nova York, e o Brent Blend – extraído no Atlântico Norte e negociado na Bolsa de Londres.

Já os petróleos pesados, que têm cadeias de carbonos maiores e mais difíceis de serem reduzidas, são usados principalmente para fazer asfalto e combustível de máquinas. O petróleo brasileiro é, em maior parte, do tipo pesado.

“Temos uma ideia errada do de que somos autossuficientes em petróleo. Isso é uma meia verdade, porque somos autossuficientes em petróleo, mas não somos em derivados”, afirma Maurício Jaroski, engenheiro químico e consultor responsável pela área de Energia e Química Sustentável da MaxiQuim.

Importamos petróleo bruto e derivados

É possível refinar e extrair derivados nobres do nosso petróleo, mas acaba saindo mais caro. A maior parte das nossas refinarias foi construída na década de 1990, antes do Brasil começar a explorar suas grandes reservas de petróleo pesado, e não está preparada para refinar o óleo que extraímos aqui.

Alexandre Szklo explica que temos, então, duas opções: investir em refinarias bastante complexas, capazes de ajustar quimicamente nosso petróleo para produzir combustíveis ou ter refinarias de razoável qualidade (como temos) e fazer uma mistura de petróleos para conseguir refinar.

“O Brasil exporta mais petróleo do que importa, muito mais, mas precisa comprar uma certa quantidade de petróleo com determinadas características para fazer, sobretudo, lubrificante”, afirma.

Os especialistas explicam também que, ainda que tivéssemos reservas de petróleo leve, não temos refinarias o suficiente para refinar todo o petróleo que extraímos todos os dias. Por isso precisamos importar não somente o petróleo leve para misturar ao nosso, como também os derivados já prontos.

Destaque para o diesel

O professor da Coppe/UFRJ explica que o mercado consumidor brasileiro é fortemente concentrado no diesel. “Ainda que você tenha um parque refinador com rendimento alto, precisaríamos de mais refinarias para produzir mais diesel, senão a gente acaba obrigado a importar”, diz ele.

E o que exportamos?

Exportamos o petróleo bruto que não refinamos no Brasil – mas esse é um óleo mais barato, por ser menos nobre e mais difícil de refinar. A diferença média entre o preço de um barril de petróleo leve e um de petróleo pesado é de 40%.

Então, no fim, importamos petróleo leve e derivados, que são mais caros, e exportamos petróleo bruto, que é mais barato.

A política da Petrobras e o aumento das importações

Até o ano passado, a Petrobras subsidiava os preços dos combustíveis que saiam das refinarias, inviabilizando a entrada de novos competidores no mercado brasileiro. Com a mudança na política de preços, que agora variam de acordo com o câmbio e o preço internacional do barril, o cenário mudou.

“Desde que começou a seguir a oscilação de preços internacional, a empresa opera no verde. Até então, só operava no vermelho, subsidiando a gasolina aqui dentro. Ela comprava num preço bem mais alto e vendia mais barato”, explica Maurício Jaroski, da MaxiQuim.

Hoje, alguns distribuidores preferem negociar cargas de combustíveis vindas de refinarias do exterior para revender no Brasil. Para Alexandre Szklo, a importação está sendo favorecida pelos preços da Petrobras, que estão acima dos praticados no mercado externo.

“A Petrobras está precificando ligeiramente acima da paridade internacional. O que, para a companhia, não faz sentido. Parece que ela está ganhando dinheiro, mas na verdade ela está atraindo importadores”, diz.

A empresa afirma que, dependendo do nível de produção, é mais rentável exportar petróleo cru e importar óleo diesel, pois a produção de diesel gera também outros derivados que não têm valor de mercado.

As importações brasileiras de diesel chegaram a 3,6 bilhões de litros no primeiro trimestre. O volume importado é o maior desde 2000, quando a ANP passou a reunir dados sobre o mercado de combustíveis no país.

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