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Crise maior ameaça vendas do Brasil

A vitória surpreendente do candidato kirchnerista Alberto Fernández sobre o presidente da Argentina, Mauricio Macri, nas prévias desenha um cenário complicado para as exportações brasileiras ao país, que já caíram mais de 40% em 2019. Se confirmado o favoritismo, cresce também o risco de repercussões geopolíticas, afirmam especialistas.

Uma vitória de Fernández teria impacto sobre as importações argentinas em duas frentes: ao aprofundar a crise econômica do país, diminuindo mais a demanda, e desvalorizar o peso, as compras no exterior ficariam ainda mais caras, diz o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Na outra ponta, é improvável que o peso desvalorizado estimule vendas ao Brasil. A Argentina não tem estrutura de produção para exportar itens que interessem ao Brasil, como manufaturados, diz.

“Há efeito reais na exportação da indústria de transformação, não só no setor automotivo mas também no de bens de consumo. Mas o evento de hoje só maximiza os efeitos que já vínhamos observando na estagflação argentina”, afirma Lívio Ribeiro, pesquisador de economia aplicada do Ibre/FGV.

Na geopolítica, uma vitória de Fernández traria mais entraves a negociações relevantes para o Brasil. “Já tínhamos uma contraposição aberta do presidente Jair Bolsonaro a uma chapa Fernández e o que talvez esteja saindo é uma vitória maior do que o previsto”, diz Ribeiro. Caso esse cenário se confirme, o acordo entre União Europeia e Mercosul pode atrasar, diz.

Neste e em outros acordos, uma saída é que o Brasil tente se alinhar a Paraguai e Uruguai ou negocie sozinho. “Embora existam mecanismos legais para isso, o Mercosul ficaria enfraquecido”, diz Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior e sócio da Barral M Jorge.

Tais possíveis desdobramentos explicitam os riscos que o governo Bolsonaro assume ao apoiar candidatos em outros países. “Se você tem qualquer mudança eleitoral, a incerteza é enorme, principalmente quando se trata de países onde o Brasil tem forte interesse”, afirma.

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