Tecnologia

Cummins começa a vender motores movidos a gás no Brasil

Ao longo dos 27 anos em que trabalha na Cummins, Luis Pasquotto foi, algumas vezes, até a matriz da companhia, nos Estados Unidos, para discutir investimentos para produzir, no Brasil, motores a gás para caminhões e ônibus. Mas os planos eram sempre engavetados por falta de interesse no mercado brasileiro. Projetos nessa linha acabavam por “cair em descrédito”, lembra. Mas, agora, a perspectiva de aumento da oferta de gás no país, aliada à pressão da sociedade por redução de emissão de poluentes, faz Pasquotto, presidente da Cummins no Brasil, acreditar que chegou o momento de apostar nesse combustível para veículos comerciais.

Pasquotto ainda trabalhava como engenheiro de produção na Cummins quando iniciou suas incursões pela matriz com os primeiros planos para uso do gás natural em motores no Brasil. Mais tarde, ele assumiu a área de vendas e desde 2012 é o presidente da operação brasileira. Os argumentos que levou em suas últimas visitas à matriz foram convincentes e a empresa decidiu iniciar a venda, no mercado brasileiro, de motores a gás para caminhões e ônibus.

A Cummins já fez uma parceria com a Agrale para os primeiros projetos de desenvolvimento de uma linha de caminhões movidos a gás no país e daqui a duas semanas vai expor a novidade em São Paulo, na Fenatran, a maior feira do transporte rodoviário de carga da América Latina.

Inicialmente, o novo motor será importado dos Estados Unidos. Os planos de produção na fábrica de Guarulhos (SP) estão atrelados ao futuro crescimento da demanda. Inaugurada em 1974, a fábrica de Guarulhos, onde trabalham 1,4 mil dos 1,6 mil funcionários da empresa no país, mantém-se como o principal centro de produção da Cummins na América do Sul.

Além dos motores, a unidade produz filtros e geradores, além de produtos usinados, como blocos e cabeçotes de motor, também exportados, principalmente para os Estados Unidos.

Pasquotto está otimista em relação ao crescimento do uso de gás veicular no país. Para ele, um dos maiores estímulos é a intenção do ministro da Economia, Paulo Guedes, de abrir o mercado de gás, o que reduziria o preço do produto. Além disso, ele aponta os sinais de interesse do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de apoiar o uso desse tipo de energia.

A condução da política econômica também anima o executivo. “As coisas não estão acontecendo na velocidade que esperávamos no início do ano; principalmente em relação ao crescimento do PIB, mas estão acontecendo”.

Com a mudança de hábitos e a busca de novos tipos de energia no transporte, a Cummins, empresa que há exatos 100 anos produz motores a diesel, se vê obrigada a mudar o perfil. Será a transformação mais radical desde a fundação, em 1919, quando o empresário Clessie Cummins, instalou, em Indiana, uma oficina num antigo moinho para aprimorar o desenvolvimento de motores.

Para Pasquotto, a busca de energias alternativas “não significa que teremos uma solução única”. Segundo ele, globalmente a Cummins investe tanto na eletrificação quanto no gás natural, biocombustíveis e células de combustível.

Há poucos dias, a companhia adquiriu a Hydrogenics, empresa do Canadá, que fornece tecnologias de produção de células a combustível e de hidrogênio industrial. E na semana passada a Cummins e a Hyundai anunciaram uma parceria para o desenvolvimento e venda de sistemas elétricos e de células de combustível. No início, o foco será o mercado de veículos comerciais nos EUA.

No Brasil, a eletrificação levará mais tempo, segundo o executivo. “Não seremos os primeiros; não estamos afobados, somos cautelosos”, destaca. Segundo ele, a Cummins tem testado a tecnologia de veículos elétricos nos Estados Unidos, com ênfase em ônibus urbanos, principalmente na Califórnia, onde as regras de emissões são mais rígidas. “Mas aqui ainda estamos tratando o assunto muito passo a passo para poder entender a hora certa”, diz.

Para Pasquotto, o custo ainda elevado e a necessidade de investir em infraestrutura são os dois principais impedimentos para o aumento da demanda por veículos elétricos no Brasil. A tecnologia virá, no futuro, diz, começando por veículos com rotas definidas, como os caminhões de entregas e ônibus urbanos.

Já o motor a gás representa, diz, o executivo, uma inovação intermediária, entre o diesel e elétrico. “É uma tecnologia já pronta. Além disso, embora também exija expansão da infraestrutura de oferta do produto nos postos, o investimento nessa parte é bem menor do que no caso dos elétricos”, diz.

Para ele, por mais que alguns frotistas tenham a inovação e a sustentabilidade no foco de seus negócios, o custo operacional ainda é o que decide a escolha do veículo na hora da compra. “Enquanto a regulamentação de normas de emissões não forçar a mudança e o custo operacional não compensar não teremos demanda”, diz. “Ainda não chegamos num motor elétrico que não precise de subsídios e sabemos que a prioridade, no Brasil, hoje é destinar o orçamento público a outras necessidades”.

Pasquotto garante, porém, que o motor a gás que a empresa começará a vender no Brasil oferece índice de emissões de poluentes muito baixo. “É cerca de dez vezes menor do que o Euro 6”, afirma, referindo-se à regra que leva esse nome na Europa e que no Brasil equivale à oitava fase do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve). A resolução estabelece regras mais rígidas de emissões em veículos comerciais em produção a partir de janeiro de 2023.

A direção da Cummins sabe que o uso do diesel e dos motores a combustão tende a cair progressivamente. “Mas isso levará muito tempo; talvez décadas.

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