América do Sul

Dinheiro chinês entra no Brasil como mordidas da guerra comercial dos EUA

Enquanto a China e os Estados Unidos – as duas maiores economias do mundo – lutam pelo comércio, Pequim se volta cada vez mais ao Brasil para preencher o vazio, despejando dinheiro em um portfólio diversificado de investimentos.

Antes de 2010, os fundos chineses que fluíam para o Brasil estavam focados principalmente em garantir alimentos e energia para o gigante asiático. Mas nos últimos anos, essa estratégia se expandiu para incluir os setores de telecomunicações, automotivo, energia renovável e serviços financeiros.

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E com a China agora envolvida em uma guerra comercial crescente com Washington, Pequim tem ainda mais incentivo para se aproximar do Brasil e de seus outros parceiros no grupo BRICS de economias emergentes – Rússia, Índia e África do Sul. É provável que o investimento esteja no topo da agenda quando o grupo abrir sua cúpula na quarta-feira em Johanesburgo.

Um agricultor observa suas lavouras de soja em Barreiras, Brasil, em 2014. Foto: Reuters
Um agricultor observa suas lavouras de soja em Barreiras, Brasil, em 2014. Foto: Reuters

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. De 2003 a junho deste ano, as empresas chinesas investiram quase US $ 54 bilhões em cerca de 100 projetos no Brasil, segundo dados do Ministério do Planejamento do Brasil.

Somente em 2017, o número chegou a quase US $ 11 bilhões.

Essa é uma boa notícia para o Brasil – a maior economia da América Latina tem surgido lentamente, com uma alta e crescente dívida pública, de sua pior recessão na história, que se estendeu até 2015 e 2016.

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“A China pode desempenhar um papel muito importante para ajudar a economia brasileira a se recuperar da estagnação”, disse Luiz Augusto de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial China-Brasil.

De 2005 a 2017, o Brasil recebeu 55% de todos os investimentos feitos por empresas chinesas na América Latina, segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe.

E esse dinheiro está indo para uma seleção cada vez maior de indústrias.

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa diversificação foi o anúncio, em janeiro, de que o gigante chinês Didi Chuxing pagaria US $ 297 milhões pelo aplicativo brasileiro de táxi 99.

A China também invadiu o setor bancário do Brasil “para investir ainda mais, assegurando seu próprio financiamento”, explicou Lia Valls, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.

Em março, a China Communications Construction Company começou a trabalhar no porto de São Luis, no nordeste do país, com 70% de financiamento do Banco Industrial e Comercial da China.

Por que a China não pode contar com o Brasil para preencher a lacuna de soja em seu comércio

Apesar de seus desafios econômicos, o Brasil mantém uma balança comercial favorável com a China, graças a superávits recorde (superou US $ 20 bilhões em 2017).

As exportações brasileiras para a China, que eram 2% do total em 2000, subiram em quase duas décadas para chegar a 26% no primeiro trimestre de 2018, segundo dados oficiais.

Um trabalhador carrega sacos de ração animal feitos a partir de soja no Hopefull Grain and Oil Group em Sanhe, na província chinesa de Hebei, em 19 de julho. Foto: AFP
Um trabalhador carrega sacos de ração animal feitos a partir de soja no Hopefull Grain and Oil Group em Sanhe, na província chinesa de Hebei, em 19 de julho. Foto: AFP

Alguns analistas, no entanto, apontam para um forte desequilíbrio no comércio, uma vez que as matérias-primas, incluindo ferro e soja, representam 86% das exportações.

Mas Castro Neves afirma que o setor agroalimentar é cada vez mais “de valor agregado”. “Atualmente, a produção de soja utiliza cada vez mais alta tecnologia e estimula outras atividades”, disse ele.

Castro Neves diz que lamenta a falta de uma estratégia brasileira mais ampla para se beneficiar desse fluxo maciço de capital.

“Os países da América Latina, inclusive o Brasil, têm uma atitude passiva em relação à China”, explicou ele. “Os chineses sabem exatamente o que querem de nós.

“Mas sabemos o que estamos procurando deles, além de vender mais?”

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