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Impasse sobre navios de carga iranianos expõe crise profunda brasileira

O impasse sobre a possibilidade de abastecer dois cargueiros iranianos encalhados no sul do Brasil expôs ainda mais as contradições acentuadas que o establishment do país enfrenta em meio à violenta virada à direita que culminou na eleição do fascista presidente Jair Bolsonaro.

Os dois navios iranianos, o Bavand e o Termeh, foram atracados do início de junho a 27 de julho em Paranaguá, no Paraná, o terceiro maior porto do país, até finalmente receber o combustível necessário para a viagem de volta.

Eles haviam sido afretados pela empresa brasileira Eleva Química, tendo trazido cargas de uréia, um produto petroquímico usado como fertilizante, e definido para retornar ao Irã carregado com 100 toneladas de milho brasileiro.

A estatal brasileira, no entanto, recusou-se a fornecer diesel para os navios por medo de represálias norte-americanas. Segundo O Globo , a base para a decisão foi uma comunicação específica do governo dos EUA às autoridades brasileiras de que a importação de ureia do Irã está sujeita a restrições impostas unilateralmente por Washington, e as empresas e portos que facilitam seu comércio podem estar sujeitos a sanções. . O caráter conspiratório da decisão, que o governo não poderia justificar com base no direito internacional, mas apenas invocando a “comunicação dos EUA”, desencadeou uma disputa judicial que revelou o crescente colapso do sistema político brasileiro.

Após a recusa da Petrobras em abastecer os navios, a justiça do estado do Paraná que cobre a cidade de Paranaguá inicialmente concedeu uma liminar à Eleva Química forçando a Petrobras a fornecer combustível para as embarcações sob pena de multa diária. Em resposta, a Procuradoria Geral da República e a Procuradoria Geral da República, esta última atuando em defesa do governo Bolsonaro, apelaram da liminar. O resumo da Procuradora Raquel Dodge girou em torno do argumento do Ministério das Relações Exteriores de que o fornecimento do combustível seria prejudicial para os interesses estratégicos e as relações diplomáticas do Brasil.

Dois dias depois, questionado sobre a questão, Bolsonaro respondeu desdenhosamente: “Você sabe que estamos alinhados com a política deles [dos EUA]. Então fazemos o que temos que fazer.

Finalmente, em 25 de julho, o presidente do Supremo Tribunal, José Antônio Dias Toffoli, ordenou que a Petrobras fornecesse combustível para as embarcações. Depois de apresentar o argumento de que as operações comerciais de exportar milho para o Irã pela Eleva Química, não estaria sujeito a sanções pelas autoridades dos EUA, ele acrescentou que fazê-lo sob uma ordem judicial facilitaria a defesa da Petrobras em face de ameaças de Washington. O mais notável, no entanto, foi a referência aberta de Toffoli aos interesses estratégicos subjacentes à disputa, incluindo o argumento de que a recusa da Petrobras em abastecer os navios prejudicaria a balança comercial brasileira, já que o Irã é um grande parceiro comercial, responsável por um terço das exportações. do milho brasileiro.

A decisão de Toffoli, tomada um dia depois de o embaixador iraniano no Brasil, Seyed Ali Saghaeyan, ter dito a autoridades brasileiras sobre a iminente retaliação, a menos que os navios fossem abastecidos, é outro sinal claro do colapso do sistema político brasileiro. Essa tendência já havia sido exposta em casos anteriores, como no impasse que levou Bolsonaro a se retirar de sua promessa de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, um gesto que ameaçava desencadear retaliações econômicas por parte dos países árabes.

Tendo como pano de fundo a violação unilateral pelo governo dos EUA do seu acordo nuclear com Teerã, seguido por sanções econômicas e um aumento militar que ameaça levar o mundo à beira de uma terceira guerra, a disputa também está revelando a extensão do colapso. das chamadas políticas “nacionalistas” introduzidas sob os governos da chamada Maré Rosa na América Latina, sob condições do boom das commodities alimentadas pela China.

Durante anos, o Partido dos Trabalhadores (PT) exaltou o papel do ex-presidente Lula da Silva em convencer o Irã a entrar em negociações com os Estados Unidos, chegando a alegar que o acordo nuclear imposto pelos EUA e outras grandes potências no país país não teria sido assinado sem a intervenção de diplomatas brasileiros.

Na época, ao mesmo tempo em que posava como uma força “antiimperialista” contra a hegemonia dos EUA, o governo brasileiro estava conscientemente agindo em coordenação com a Turquia, então uma aliada chave de Washington, para legitimar os interesses imperialistas dos EUA. Com completa hipocrisia, ex-chanceler de Lula, Celso Amorim, foi, mais tarde, em abril 2019, escrevendo no diário argentino Página 12 para exaltar o papel de Lula em garantir US interesses estratégicos do imperialismo no Oriente Médio como uma das motivações para a concessão a ele um Prémio Nobel da Paz.

A ordem de Bolsonaro em relação aos navios iranianos foi claramente projetada para causar um alvoroço e sinalizar o violento realinhamento da política externa do Brasil com o imperialismo dos EUA. Não é por acaso que no centro da controvérsia estava a estatal Petrobras, cujo desmantelamento foi amplamente acelerado desde 2013 sob os governos de Dilma Rousseff, Michel Temer e agora Jair Bolsonaro.

Depois que o governo do PT de Rousseff declarou a lei marcial virtual no estado do Rio de Janeiro, despachando mais de 1.000 tropas do Exército para impedir que os trabalhadores da Petrobras protestassem contra o primeiro leilão do bloco de petróleo, Bolsonaro declarou que continuará com o desmembramento dos monopólios da Petrobras. sobre o refino de petróleo e a distribuição de gás natural e liquefeito de petróleo.

O novo chefe da Petrobras, nomeado por Bolsonaro, chegou a um acordo com a agência antitruste do CADE – parte do Ministério da Justiça – prometendo privatizar não menos que 50% de sua capacidade de refino e deixar o setor de transporte de gás inteiramente 2021, supostamente em troca de o CADE não adotar medidas antitruste contra a empresa. Em 6 de junho, o Supremo Tribunal Federal votou para autorizar a empresa a vender subsidiárias sem sequer buscar o maior lance em uma licitação pública.

Desde a mudança de direita de Rousseff em 2013 e depois da descoberta do escândalo maciço de corrupção centrado na Petrobras pela chamada operação Carwash, o desmantelamento da empresa tem sido um objetivo-chave da burguesia do país em meio à sua aproximação ao imperialismo norte-americano. Isto foi justificado em parte sob o pretexto de desmantelar os esquemas de corrupção.

Após a venda de dois grandes oleodutos ao capital estrangeiro desde abril, e em meio à disputa com navios iranianos em 23 de julho, a Petrobras cedeu o controle de sua subsidiária, a BR Distribuidora, vendendo metade dos 70 por cento de suas ações por 9,6 bilhões de reais (US $ 2,5 bilhões). Os próximos passos incluem a venda de refinarias e a “Liquigás”, que atua no engarrafamento, distribuição e comercialização de gás liquefeito de petróleo. No final, o objetivo do governo é limitar a Petrobras exclusivamente à exploração e produção de petróleo no mar – a mais arriscada e custosa de suas atividades -, o que é o menos atraente para o capital nacional estrangeiro e privado.

Essa série de medidas apenas motivou a oposição oficial liderada pelo PT a aprofundar sua orientação a supostos oponentes militares do governo Bolsonaro. Em meio ao clamor público em relação ao alinhamento de Bolsonaro com os EUA na questão-chave do Irã, o porta-voz do PT, Brasil247, reproduziu em sua forma tipicamente bajuladora uma coluna do auto-intitulado especialista nacionalista Luís Nassif que exaltava pequenas reservas táticas dentro do comando do Exército. às políticas de Bolsonaro como o começo de uma “reação” contra o alinhamento dos EUA. Sob a manchete “Nassif diz que o Exército pode reagir aos dimantamentos de Bolsonaro”, o artigo cita sua análise, baseada nos editoriais do bocal do Exército .que o Exército está preocupado com os “riscos de segurança nacional” impostos pela derrubada de “políticas sociais”. Isso, dizia, estava levando o Exército a um acordo com a oposição, que por sua vez levaria a oposição a apoiar as forças armadas. .

Nassif prossegue dizendo que Bolsonaro é “desprezado pela ala moderna e democrática do exército, representada pelo general Santos Cruz, que considera o Bolsonaro um perigo nacional”. Acrescenta que sua “subserviência” aos Estados Unidos “produziu desconforto em Caracterizando o poder militar como “estrategistas objetivos e determinados”, Nassif exprime o ex-candidato presidencial do PT Fernando Haddad, que se refere aos militares como os “adultos na sala” que seriam capazes de controlar Bolsonaro.

Com o Brasil mergulhando em uma crise social e política gerada por anos de recessão, com o peso da crise sendo jogado sobre os ombros da classe trabalhadora, as manobras políticas tanto da classe dominante brasileira quanto de seus defensores da pseudo-esquerda são em direção à imposição. de métodos autoritários de governo.

Na medida em que denunciam Bolsonaro, os comentários da pseudo-esquerda revelam que, assim como as Forças Armadas, é para permitir que a classe dominante cumpra seus objetivos sem “riscos de segurança”, ou seja, a erupção da oposição social de massa. .

À medida que trabalhadores e jovens brasileiros entram na luta contra o governo Bolsonaro e se movem para a esquerda, setores da classe média alta, a burguesia e seus representantes políticos estão se voltando rapidamente para a direita, para a repressão e a ditadura. A única maneira de sair do abismo que está sendo preparado pelo establishment é através da mobilização de um movimento político independente da classe trabalhadora contra o Bolsonaro e o sistema capitalista que ele, juntamente com o PT e seus satélites de esquerda, todos defendem.

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