Energia

Petroleiras miram termelétricas e disputarão leilão de energia no Brasil

O setor elétrico entrou de vez no radar das grandes petroleiras globais, ávidas por consolidar no Brasil um mercado consumidor para suas respectivas produções de gás natural, sejam elas oriundas do pré-sal ou do exterior, por meio da importação de gás natural liquefeito (GNL). Embaladas pelo processo de abertura do mercado brasileiro de gás, empresas como Shell, Equinor e BP, além da Petrobras, buscam oportunidades de negócios na geração de energia, mas terão pela frente um ambiente de forte concorrência. O leilão de energia nova A-6 desta sexta-feira (18) será uma amostra dessa disputa, que envolve não só petroleiras, mas as grandes geradoras com expertise na área, como a Engie e Eneva.

A licitação promete ser bastante acirrada. O Valor apurou com fontes do governo e do mercado, que, devido à baixa demanda das distribuidoras de energia, apenas uma ou duas térmicas devem ser contratadas no leilão, dentre os 26 projetos de termelétricas a gás habilitados. Na lista de concorrentes, estão empresas como a Shell, GNA (BP/Siemens/Prumo Logística) e a Golar, donas dos três maiores projetos privados de geração de energia em construção no país, atualmente, e que vão em busca de novos contratos, na tentativa de ampliar seus respectivos complexos termelétricos.

Em meio à abertura do setor de gás, o leilão será uma oportunidade para que petroleiras consigam encontrar mercado para seus volumes. Este é o caso, por exemplo, da Shell, que participará da licitação com um projeto de expansão da termelétrica Marlim Azul (565 megawatts), em Macaé (RJ), onde a multinacional possui uma fatia de 29,9%, em sociedade com a Pátria Investimentos (50,1%) e a Mitsubishi (20%). A usina, prevista para 2023, foi a primeira investida da petroleira na tentativa de monetizar sua parcela de gás no pré-sal.

Sócia da Petrobras nos campos Lula e Sapinhoá, a Shell é a segunda maior produtora do Brasil, com volumes de 15 milhões de metros cúbicos diários (m³/dia) — o equivalente a 11% de todo o volume produzido no país. Hoje, esses recursos são vendidos para a estatal, mas a petroleira brasileira se comprometeu junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a não renovar seus contratos para compra de gás de terceiros. A medida abre oportunidades para empresas como a Shell se consolidem como fornecedoras. Para a expansão de Marlim Azul, por exemplo, a ideia é abastecer a usina com parte do gás que a Petrobras deixará de comprar da multinacional.

Ao menos outras duas grandes petroleiras tentam replicar a estratégia da Shell. Na semana passada, a norueguesa Equinor e a Petrobras, sócias na descoberta de gás de Pão de Açúcar, na Bacia de Campos, assinaram um memorando de entendimentos para desenvolvimento conjunto de negócios na indústria de gás, incluindo projetos de geração termelétrica. A estatal brasileira busca oportunidades no setor de energia, não só como geradora, mas também como fornecedora para usinas de terceiros e existe a expectativa de que ela possa entrar na concorrência de sexta-feira. “Olhamos sim [o leilão A-6]”, afirmou a diretora de refino e gás da companhia, Anelise Lara, em agosto.

A britânica BP, uma das sócias da Gás Natural Açu (GNA), também busca no leilão A-6 um mercado para suas cargas de GNL importado. A companhia será a supridora das duas usinas em construção pela GNA no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ), num total de 3 mil MW. A Gás Natural Açu inscreveu mais dois projetos, num total de 2,2 mil MW, para a licitação de sexta-feira.

Terceira maior produtora de gás natural do mercado brasileiro, atrás apenas da Petrobras e da Shell, a Eneva é outro exemplo de produtora de gás que vem buscando oportunidades de expansão de seus negócios no setor de geração de energia. Maior geradora termelétrica privada do país, a companhia possui, hoje, 1,4 mil MW de capacidade instalada de usinas a gás natural, no Complexo Parnaíba, no Maranhão, e outros 500 MW em construção. A empresa, no entanto, segue ativa na exploração e produção de gás terrestre e inscreveu, para o leilão desta sexta-feira, um projeto de 270 MW no Parnaíba. Com custos de produção baixos, em relação ao gás do pré-sal e GNL, a Eneva desponta como uma das favoritas no leilão de sexta-feira.

O leilão A-6 será disputado por grandes empresas do setor de GNL. A Golar, sócia da Ebrasil na Celse, responsável pela construção da usina Porto de Sergipe (1,5 mil MW), em Barra dos Coqueiros (SE), vai participar do leilão com mais três projetos, no Sergipe e Pará, todos em sociedade com parceiros distintos, num total de 2,4 mil MW. Um deles é a expansão da térmica sergipana. A francesa Engie Brasil Energia (EBE), controlada pela francesa Engie, também pretende participar do leilão com um projeto de 600 MW, a GNL, em Santa Catarina.

Leilão A-6

O leilão deve contratar entre 500 e 600 megawatts (MW) médios, estima a consultoria Thymos Energia. Segundo a empresa, o volume esperado é inferior aos dos leilões realizados em anos anteriores.

“A demanda modesta se deve, em parte, a uma incerteza sobre a retomada econômica. Ainda assim, há distribuidoras que precisam adequar o portfólio, que tiveram aumento na demanda ou que têm contratos próximos do vencimento e precisam recontratar fornecedores”, comenta Sami Grynwald, gerente na Thymos Energia, em nota.

A expectativa, portanto, é que haja uma disputa acirrada entre os projetos de termelétricas a gás no leilão. Para o presidente da consultoria PSR e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Barroso, a competição entre grandes investidores no setor é saudável

“O setor elétrico, sem dúvida, pode ser uma âncora para produzir demanda para o setor de gás, mas o volume a ser absorvido vai depender da declaração das distribuidoras no leilão, que segue uma lógica econômica”, afirma Barroso. ( Valor)

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