Celulose

Produtor reluta em cortar oferta e preço da celulose cai

A manutenção dos estoques de celulose em níveis significativamente além do normal nos principais portos da China e da Europa e anúncios ainda tímidos de redução de oferta da matéria-prima levaram os preços da fibra curta a cair novamente na semana passada, depois de quinze dias de relativa estabilidade. Embora esteja aberta a temporada sazonalmente forte para a indústria, a resistência das papeleiras em voltar a comprar maiores volumes da fibra e incertezas sobre os desdobramentos da guerra comercial entre China e Estados Unidos devem seguir pressionando as cotações, impedindo a recuperação no curto prazo.

Do lado da demanda, apesar de não ter havido mudança estrutural, as compras de celulose nos principais mercados internacionais perderam ritmo neste ano. Isso acontece porque os estoques junto aos produtores seguem elevados e, nesse cenário, os compradores não têm pressa alguma em aumentar os volumes que mantêm em inventário próprio, conferindo uma “nova” dinâmica às negociações. Sob a aposta de que os preços seguirão pressionados ou poderão cair ainda mais, as papeleiras não têm motivos para ampliar as encomendas. Além disso, a China é hoje a maior compradora de celulose no mundo e as tensões comerciais têm afetado o crescimento econômico do país.

Do lado da oferta, os anúncios de redução de produção ainda são pontuais. Além de Suzano e CMPC, alguns produtores no Hemisfério Norte adotaram medidas dessa natureza, que por enquanto vão se mostrando insuficientes para motivar uma reversão na curva de preços. Em relatório recente, os analistas Daniel Sasson e Ricardo Monegaglia, do Itaú BBA comentaram que, segundo a consultoria Hawkins Wright, quase 10% dos produtores mundiais de celulose de fibra curta operam no ponto de “break even” ou com margem negativa quando os preços líquidos estão no intervalo de US$ 460 a US$ 480 a tonelada – como se vê na China neste momento. Ou seja: haveria mais fábricas a caminho de suspender a produção.

“Geralmente, os produtores de custo marginal são capazes de se adaptar às condições desafiadoras com o aumento das vendas locais, reduzindo custos operacionais e de frete. Dito isso, embora seja difícil prever prazo e impacto em volume dos fechamentos de capacidade, acreditamos que a materialização desses eventos poderia acelerar a volta do mercado a um nível mais equilibrado”, escreveram os analistas. Até agora, porém, tais medidas não se materializaram.

Além das questões intrínsecas à indústria de papel e celulose, as tensões comerciais entre Estados Unidos têm desempenhado um papel relevante para o ciclo de baixa atual da celulose. As incertezas quanto a um potencial acordo entre as nações, e os termos de um eventual acerto, também contribuem para que as papeleiras comprem menos matéria-prima e mantenham o mercado pressionado.

A demanda menos aquecida na esteira da guerra comercial, estoques em níveis nunca antes vistos e a deterioração do cenário de longo prazo levaram a equipe de análise do Goldman Sachs a reduzir as projeções para os preços da matéria-prima e para os resultados das companhias de celulose e papel na América Latina no fim da semana passada.

Como consequência dessa revisão, o banco cortou de compra para neutra a recomendação para as ações de Suzano, com preço-alvo revisado de R$ 35 por papel nos próximos 12 meses, e reduziu de neutra para venda a recomendação para Klabin, com preço-alvo de R$ 14 por unit, frente a R$ 17 anteriormente.

De acordo com os analistas Thiago Ojea e Lucas Canteras, nos últimos cinco ciclos, a desvalorização da celulose perdurou em média por 12 meses, com desvalorização de US$ 300 por tonelada. Até agora, em 10 meses, os preços da fibra curta na China caíram US$ 300 por tonelada. “Isso pode indicar que o ponto de inflexão está próximo. Contudo, os níveis atuais de estoque de 51 dias estão 60% acima da média histórica e não encontram precedentes, o que deve atrasar qualquer recuperação”, escreveram.

O Goldman Sachs cortou de US$ 685 por tonelada para US$ 549 por tonelada o preço médio para a celulose de fibra curta na China em 2020, com recuperação em 2021 e novo declínio entre 2022 e 2023 diante da entrada em operação de novas fábricas. Para 2021, o banco projeta agora preço médio de US$ 651 por tonelada, frente a US$ 720 por tonelada anteriormente.

Para os analistas, os estoques de celulose de fibra curta, que estão concentrados nas mãos da Suzano, somente devem se normalizar mais perto do terceiro trimestre de 2020, o que abriria espaço para uma recuperação mais rápida dos preços. Hoje, os inventários de fibra curta estão em 61 dias, frente a 39 dias da média histórica.

De acordo com pesquisa semanal da consultoria Foex divulgada na terça-feira, o preço líquido da tonelada da fibra curta na China caiu US$ 2,70 ante a semana anterior, para US$ 475,51. Com isso, no ano, a desvalorização da matéria-prima do papel chega a US$ 177 por tonelada no mercado asiático. Na comparação com a cotação verificada há um ano, a queda é de US$ 295,50 por tonelada.

Na Europa, que tipicamente acompanha a trajetória do mercado chinês com algum atraso, a tonelada da fibra curta perdeu US$ 3,50 na semana, para US$ 751,03. A baixa no acumulado do ano chegou a US$ 274,70 por tonelada – cabe lembrar que, na China, os preços enfrentaram forte queda já no quarto trimestre de 2018 – e, em 12 meses, a US$ 299 por tonelada.

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